Renata Roman e As Peças Radiofônicas, 1997

As peças radiofônicas de 1997 e a criação de “Uma Noite Lírica: Álvares de Azevedo em transe”

Entre março e julho de 1997, estive em uma oficina oferecida pela Secretaria Municipal de Cultura na Casa de Cultura Parque Chico Mendes (Vila Curuçá, hoje do Itaim, mas na época de São Miguel Paulista) e coordenada por Renata Roman. A oficina intitulava-se “Oficina de Peças Radiofônicas”.

1997 e como estávamos? O Alucinógeno Dramático Teatro & Pesquisa, então composto por mim, Marcelo San, Ivan Neris e Andreia Farias, realizávamos o espetáculo “Tempestade & Ímpeto”, sobre a ditatura militar. Nesta peça já utilizávamos alguns recursos sonoros como voz em flashback e imagens projetadas em slide, o que nos permitia utilizar um cenário super econômico de uma mesa, duas cadeiras e um pano branco ao fundo. Era inovador na região? Era, mas os elementos oferecidos na oficina de Roman abriram novas perspectivas sonoras.

Quatro pessoas estavam neste curso: eu, Marcelo San Geres, Roberto C. Santos e o Marcão, um negro alto com uma voz grave que tinha facilidade em realizar sons com a boca: descargas, aviões, ônibus, ele emulava várias sonoridades, nos lembrando o personagem de Michael Winslow nos filmes da franquia Loucademia de Polícia. Marcão se perdeu no tempo e na memória e nem seu sobrenome ficou. Uma pena.

No primeiro dia do curso nos deparamos com Roman, uma bela mulher jovem, de pequena estatura, uma energia diferenciada, com roupas em tons escuros, um cachecol (ou echarpe?) e cigarros como nos filmes. Lembro-me do momento em que ela acendeu o primeiro em nossa frente. Naqueles tempos fumava-se em lugares fechados e a sala central do Parque Chico Mendes era grande e ventilada – e eu também fumava, então, era divertido.  Havia uma piada entre nós, participantes, mas não tivemos coragem de perguntar a ela sobre seu suposto parentesco com Polanski, Roman.

Renata trouxe consigo um conhecimento fascinante sobre peças teatrais sonoras em ondas de rádio e, naquele tempo, ouvíamos muito radio, fosse realizando tarefas manuais, fosse nos trajetos realizados no carro de San Geres para as apresentações teatrais. O rádio era algo muito presente em nossa vida, e haviam os programas humorísticos em algumas estações, assim como dramatizações de cartas de ouvintes e coisas assim.  Se não me falha a memória, Renata indicou algo na rádio USP e, devido a isto, começamos a ouvi-la.

Além dos conceitos que foram se incorporando ao nosso fazer artístico, os exercícios de criação eram interessantes, divertidos e bem democráticos. Todos escreviam, todos interpretavam, todos estavam ali de igual para igual. Lembro de um exercício que era no velho oeste e não podia usar palavras, apenas sons. A sequência está viva até hoje na minha memória. Renata sabia conduzir nossa criatividade em prol da arte de uma maneira muito peculiar, o que nos deixou apaixonados por ela e por aquela atividade, firmando-nos no curso. Outro fator que muito nos prendeu foi o fato de que havia poucos participantes ali. Era horrível que algo tão bom oferecido a todos não fosse usufruído. Mas fracassamos em conseguir novos participantes: o curso era de semana, à tarde, os interessados trabalhavam naquele horário.  E os quatro meses passaram muito rápido, e bem mais rápido parece hoje na memória. Do resultado final da oficina, saíram três textos:

Décimo Andar (tudo que sobe, desce), de Marcelo San Geres. Uma divertidíssima comédia sobre um casal, uma infidelidade e um desfecho que colocaria Porta dos Fundos perplexa com o estilo de humor inovador que San Geres possuía.

Príncipe Calo o, é… Deixa pra lá, de Roberto C. Santhos. Outra comédia, mas mais ácida e baseada em uma realidade local. Explico: havia um artista no bairro cujo ego estava muito acima de todos. Roberto achava cômica toda aquela pretensão da figura e criou Egostofolis e um conto de fadas esculhambado e insanamente cômico. Era uma piada interna, cheia de referências, que também funcionava em um universo mais amplo.  

Quarenta Estilhaços: Chico Mendes, de Claudemir Darkney Santos.  Este drama que escrevi refletia sobre os acontecimentos ligados ao assassinato de Chico Mendes, em 1988, e seu desenrolar histórico. Este exercício deu origem ao espetáculo “Terra em Estilhaços” um ano depois, premiado com melhor iluminação, melhor atriz para Cylene Santos e apresentada no festival de talentos que era promovido pelo Teatro do Sesi, na Avenida Paulista.

Mais dois exercícios foram resgatados desta época: “No Aeroporto”, de Marcelo San Geres  (uma inusitada carteirada política dentro de um universo absurdo: o homem queria levar um cavalo no voo e os funcionários queriam impedir o embarque devido as ferraduras) e “ No Jardim de Infância”, de Claudemir Darkney Santos (ainda não localizado no arquivo, mas com certeza em alguma pasta por aqui, narra o encontro de três amigos de infância e um assassinato ocorrido no parque onde brincavam).

Olhando os manuscritos, vê-se marcações como “fita 1” e “fita 2”; ao invés do nome dos personagens, letras (A, B, C, etc., …) e outras peculiaridades datilografas em uma época onde computador era luxo e nem se imaginava ainda entre nós telefones celulares ou mesmo internet. Estas possibilidades aumentavam muito a magia da coisa toda. Hoje, vivendo nesta pandemia, assistindo – e realizando – “peças teatrais” gravadas ou ao vivo, me soa muito falso, sendo que as peças radiofônicas, por já estarem em um veículo próprio, as ondas sonoras, me soam mais coerentes com o momento que vivemos, por mais que a imagem, no geral,  hoje tome conta de nossos sentidos à frente dos estímulos sonoros.  

A oficina foi uma das mais produtivas que participei e uma das que mais me influenciaram, pois os conhecimentos ali adquiridos resultaram em um espetáculo que foi um divisor de águas nas possibilidades cênicas em nosso teatro: “Uma noite lírica: Álvares de Azevedo em transe”.

Neste espetáculo, três jovens conversam sobre Álvares de Azevedo em uma noite regada a vinho e poesia romântica, mas, por algum motivo, aquela conversa acaba evocando o fantasma do poeta que, através da memória dos jovens, dá-se conta de ser um fantasma e rememora sua existência até sua morte a partir da conversa. O lance deste espetáculo, onde entra o conhecimento adquirido na convivência com Roman, é que o único personagem que a plateia enxergava era o Álvares de Azevedo, interpretado por Ivan Neris. Os demais personagens, só se ouvia as vozes, os arrastares de cadeiras, os copos enchendo, as folhas dos livros sendo viradas: nós invertemos os sentidos: o fantasma, que dentro da lógica proposta, seria o único a não ser enxergado, era o único visível, enquanto as pessoas reais eram invisíveis. Este espetáculo estreou em 1998 e trabalhamos com ele até 2001, levando a peça para escolas e espaços em São Paulo e no interior.

No mês de Julho de 1997, terminou a oficina. Roberto C. Santhos, que também era do Alucinógeno Dramático, mas já de saída, foi para outros grupos e realizou outros trabalhos, migrando para o centro de São Paulo e saindo da arte, por fim. Marcelo San esteve no grupo até 2006, saindo da arte para entrar na vida cotidiana de casamento, trabalho e ser feliz. Eu fiquei e ainda estou por aqui e,  casualmente, pensando nos que me trouxeram algo, lembrava-me de Roman.  Vi alguns trabalhos na internet, me encantando com as possibilidades sonoras que ela alcançava e muito feliz por ela ter aguçado minha percepção sonora, colaborando com meu fazer artístico.  Com o tempo, Roman migrou do teatro para as paisagens sonoras, para a música experimental, para o amplo universo de sons que nos rodeiam por fim, ampliando seus alcances artísticos cênicos e visuais para a sonora, um campo que, apesar de tão antigo, ainda nos é jovem, contemporâneo e inovador.

 Através das redes sociais, nos encontramos novamente – e é bom tê-la por perto, mesmo à distância – e, diante do isolamento social, das consequências de um desgoverno que o país passa neste momento e as questões existenciais e artísticas que trespassam por tudo isto, Renata Roman e sua Arte é uma ilha segura neste mar de possibilidades humanas.

Claudemir Darkney Santos. São Paulo, 19 de Outubro de 2020.

 Links do trabalho da artista:

Apresentação da artista e seu trabalho

Entrevista para o Volume Morto

Entrevista para o canal Sonora – Música e feminismo

Apresentação musical em Campos de Experimentação sonora

Publicado por Claudemirdarkneysantos

Artista que se expressa através da literatura, do teatro, da música e do audio visual. Ligado aos grupos Alucinógeno Dramático Teatro & Pesquisa e à Aldeia Satélite Espaço Cultural. Atua na Arte e na Educação no Estado de São Paulo. Formado em Arte (FMU) e Pedagogia (Unifesp).

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